Como identificar e conviver com as bolhas

Alguns amigos pediram para eu escrever sobre o Bitcoin, se é momento de comprar ou vender.

Como não tenho uma bola de cristal e qualquer coisa que eu escrevesse hoje ficaria obsoleta no dia seguinte, ao invés de falar somente sobre Bitcoin, resolvi escrever sobre as “bolhas”.

Bolhas existem e podem demorar muito tempo para estourar. Normalmente bolhas requerem mais de uma sacudida para terminar.

Relembrando a bolha das pontocom

O caso mais paradigmático de estouro de bolha foi o da bolha das pontocom, cujos ingredientes têm muitas semelhanças com os do cenário atual.

A bolha da Internet ou bolha das empresas pontocom foi uma bolha especulativa que ocorreu aproximadamente de 1994 até 2000, caracterizada por uma forte alta das ações das então novas empresas de tecnologia da informação e comunicação baseadas na Internet.

Para quem esqueceu ou era muito jovem na época, uma pesquisa rápida na wikipedia nos relembra resumidamente que, no prelúdio da bolha, uma queda nas taxas de juros aumentou a disponibilidade de capital e tornou as pessoas mais dispostas a fazer investimentos especulativos. O FED -Federal Reserve americano – injetou muito dinheiro na economia e contribuiu para alimentar os investimentos no mercado de ações.

Os investidores estavam ansiosos para investir e ignoraram as métricas tradicionais, resultando num aumento dos preços dos ativos mais tarde denominado de “exuberância irracional”.

A bolha estourou a partir de fevereiro de 2000, quando o FED anunciou planos para aumentar agressivamente as taxas de juros, o que levou a uma volatilidade significativa no mercado de ações.

Na realidade, a bolha das pontocom poderia ter terminado em 1997, 1998, 1999 ou 2000, mas só estourou quando a perspectiva de aumento da inflação levou o FED a mexer nas taxas de juros.

Os preços das ações despencaram simplesmente porque foram precificados em níveis irracionais e insustentáveis. A bolha estourou porque era uma bolha.

Estamos num momento de bolha?

Para aplacar os efeitos econômicos perversos gerados pela pandemia, Bancos Centrais e governos introduziram uma gigantesca liquidez e estímulos fiscais na economia. Os EUA, por exemplo, com o pacote de estímulos recém aprovado, injetarão aproximadamente US$ 2,5 trilhões na economia este ano, e o FED está firme na sua decisão de manter baixa a taxa de juros até que haja completa recuperação da economia. A política monetária americana tem repercussão enorme no sistema financeiro global.

Aos níveis atuais, os índices representativos das bolsas americanas Nasdaq e S&P apresentam uma valorização em relação aos níveis pré-pandemia de respectivamente 35% e 16%. Será que na média o aumento da eficiência e as perspectivas de resultados futuros das empresas que compõem estes índices justificam esta valorização?

Os papéis de renda fixa também tiveram expressiva valorização em função das taxas de juros muito baixas. Enquanto as taxas permanecerem baixas, tudo se comportará bem, mas quando este cenário mudar, a correção nos preços ocorrerá e será maior quanto maior for o prazo para o vencimento do ativo.

Para saber se um ativo ou uma categoria de ativos está em situação de bolha é necessário identificar se o seu preço está muito mais elevado que o seu preço “justo”, considerando-se os fundamentos do ativo e as taxas de juros aplicáveis na sua precificação.

Tomemos, por exemplo, as ações das empresas de tecnologia do Nasdaq: Alguns analistas afirmam que apesar dos enormes aumentos nos preços das ações das empresas de tecnologia, a maioria das principais ações não está em território de bolha, pois os preços estariam compatíveis com base em seus robustos fundamentos, já que em geral essas empresas têm apresentado crescimento e lucratividade consistentemente sólidos. Há, entretanto, uma minoria de empresas que apresentam múltiplos astronômicos, o que significa que ou estariam em território de serem consideradas bolhas, ou estão sendo avaliadas pelo mercado não pelo que são mas pelo que talvez venham a ser um dia. Segundo esses analistas, os temores de um estouro de bolha no setor de tecnologia são exagerados, já que os fundamentos e avaliações na maioria das principais participações não são remotamente comparáveis à bolha pontocom de 2000.

A maioria dos observadores concorda que, se o mercado não está em uma bolha, pelo menos está caro. Momentos de queda nos preços e realização de lucros poderiam ser oportunidades de compra.

Por outro lado, o poder que os Bancos Centrais têm de influenciar os preços dos ativos no mercado, via política monetária, pode ser de longa duração e não deve ser ignorado. Os Bancos Centrais, especialmente o americano, despejaram muito dinheiro na economia aumentando o endividamento público, e no momento não estão considerando que a inflação em seus países volte tão rápido. Dado o endividamento excepcional que tiveram que fazer para sustentar as políticas de incentivo à economia, aumentos nas taxas de juros impactariam tremendamente as contas públicas.

Então, mesmo para aqueles que considerem que estamos em território de bolha, ela pode demorar para estourar enquanto durar o que alguns denominam “experimento” econômico americano. Enquanto ela durar, aqueles que remarem contra a corrente, por mais que tenham “razão” quanto aos fundamentos, vão no mínimo deixar de ganhar ou mesmo perder.

O Bitcoin está em território de bolha ou é em si uma bolha?

Isto é objeto de muita controvérsia. Há pessoas brilhantes que defendem os fundamentos do Bitcoin (e de outras criptomoedas) e há pessoas não menos brilhantes total ou parcialmente céticas. Há os que acham que existe ainda espaço para substancial valorização, enquanto outros acham que no futuro pode não valer nada, gerando perda total aos investidores. Há uma lista de argumentos a favor e contra o investimento em Bitcoins. Para aqueles que estiverem interessados, posso indicar inbox artigos resumidos e didáticos sobre o tema.

Independentemente de qualquer discussão sobre o mérito, não dá para ignorar este ativo. Ao preço atual o total de Bitcoins existentes totalizam USD 1 trilhão. Para fazer uma comparação, o PIB brasileiro no ano de 2020 foi de USD 1,3 trilhões convertido ao nível de câmbio atual.

Apesar da grande volatilidade, o Bitcoin e outras criptomoedas foram ativos que apresentaram maior valorização no último ano, proporcionando muitas alegrias àqueles que estavam investidos. Contribuiu decisivamente para essa valorização o excesso de liquidez, baixas taxas de juros, procura de outras opções de investimento e perspectiva de desvalorização do dólar perante outras moedas.

Enquanto houver investidores que coletivamente acreditarem que o Bitcoin é uma reserva de valor, tal qual o ouro, este ativo vai continuar a ser relevante. Sendo assim, oferta e procura é o que vai determinar seu preço ao longo do tempo, dado que não está lastreado em ativos reais.

Para não deixar meus amigos totalmente sem resposta, seguem algumas sugestões sobre o investimento em Bitcoins:

Reflitam, antes de decidir investir, se a sua posição é especulativa ou de longo prazo. Estudem um pouco e entendam o que é esse ativo e seus riscos de curto e longo prazo, que inclui um cenário de perda total. Se for um investimento especulativo, lembrem-se do óbvio, às vezes esquecido: comprar barato e vender caro. Há técnicas para identificar isto, obviamente não infalíveis. Peçam ajuda, se for o caso. Avaliem se vão colocar à priori um objetivo definido de ganho para sair da posição e se vão definir um preço de “stop loss” para limitar perdas. Estejam conscientes que quando as taxas de juros aumentarem os mercados em geral terão uma correção e em momentos de “flight to quality” a correção no preço do Bitcoin poderá ser muito maior que nos outros ativos.

E no Brasil?

As questões internas que todos bem conhecemos fizeram com que os ativos brasileiros descolassem parcialmente e de forma negativa em relação aos mercados internacionais. Os recentes aumentos nas taxas de juros no mercado secundário nos permitem afirmar que, de forma geral, os ativos no Brasil não estão em situação de bolha, e refletem o cenário de incerteza principalmente quanto ao equilíbrio das contas públicas.

Conclusão:

Estamos num momento particularmente confuso nos mercados, com um alto nível de risco no longo prazo. Parafraseando um gestor de ativos de um de meus clientes, o ambiente atual é desafiador.

Dicas:

  1. Estar assessorado de bons gestores;
  2. Fazer uma revisão da estratégia de investimentos com mais frequência ao longo de 2021 e 2022 de forma a ajustar a exposição ao risco ao longo do tempo conforme o retorno esperado flutua nas principais classes de ativos;
  3. Escolher ativos que têm fundamentos sólidos e preços compatíveis ao risco. Há muitos ativos hoje cujo retorno não compensa o risco;
  4. Dependendo do perfil do investidor e de seus objetivos de longo prazo, avaliar por exemplo, sacrificar um pouco do retorno para ter menos risco, ou sacrificar um pouco da liquidez sobre uma parcela do portfólio para fazer apostas em empresas que podem ter retornos acima da média no longo prazo.